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ÚLTIMO VERSO DE AMOR - O ENFADO
Cansei de escrever para a rasura dos outros
Cansei, maldição! Cansei. Não consigo mais contornar as palavras, não sei dá-las aos deuses [Sempre com uma pitada de sal e um punhado de céu] Hão empresas entre as falanges expostas e aquecidas Há um breve resquício úmido despido de solidão. Não careço meditar para as labaredas dos leitores Sou meu clã de rastro e de poluição em leito vasto Desaviso-os compadres do apocalipse. Ora, sapos coxos! No véu há carinho engomado e desiludido... migalhinhas Outrora, hão de sossegar as lamas – o horizonte a sapear. Enfadei-me com as marchas hipócritas da Academia Com os podres teores mercantilistas das editoras [rio!] E inda rirei muito mais, porquanto durarem as estátuas Enquanto no divã espiar a amena chuva ácida Sob as escadas, sem tédio, sem olor, sem degraus. Sofro por ser julgado, sofro pela bíblia, rogo pela face À lida maldita das escrituras castas e ramificadas (cerne vão) Mores vozes e ininterruptas caiam-me... rasguem-me ao meio! Embora esteja extenuado de rouquidão, cordas frouxas hão Inda soprarei mil liras em torno dum coração desalmado. Volto ao verso anterior em prol da boa estrutura, em busca da estética Que estética mais aprimorada que a alma vazando pelos calcanhares? Num interlúdio sápido e incipiente, tal o vinho recém-entornado Cansei-me dos versos e dos inversos fora de autarquias e de lendas Inda sustenta-me o arrimo: O amor bastará sempre mais do que figurar em títulos ávidos; Cansei por não ser saboreado com furor, intersticialmente; Ali, no átrio de devassidão e de pecado, encontram-me os joelhos Com ares de juventude nas costas, proferem-me em sussurro: De embolia morreram seus calcanhares. Podemos servi-lo, senhor?
Cesar Poletto
Enviado por Cesar Poletto em 23/01/2008
Alterado em 24/04/2008 Copyright © 2008. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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