Fortuna Literária - Cesar Poletto

Poetizar é exteriorizar, é exaltar o belo, e, acima de tudo, embriagar-se com a vida.

Textos

ÚLTIMA PROSA POÉTICA - FALTARAM-ME AS PALMAS
Que fosse da sombra
Que fosse sem lastro
Do fundo do gosto, sem teto nem encosto
Que fosse apenas para me agradar...

É...
Faltou a vida nas águas limpas, do terno em asseio
Do ar espesso donde eu espreito
A amar, a estar num bojo alado, num lado sacro.

Faltou-me a ausência. Sim, tive essência
Seu tema cheio, sua veia livre
Não tenho a lua a me espiar de dia
Sem vela acesa, sem ojeriza
Meu corpo pende, meu sopro rança.

Ó meu mais elaborado poema, ouça-me!
Sem ti, enovelar-me-ei nas amarguras retidas
Sofrerei por pestes adquiridas do mundo sápido
Dum ente esdrúxulo (que não primo em amar)
Não reluto em pousar sobre suas antenas.

Bastava-me o ócio! (ou o cio plangente)
A compor misérias sob tintas infames, ao pé da página
Pelo lado o qual brota o sol, no solstício inteiro
Em mês de Janeiro, em lua olvidada.

Traga-me o castiçal, quente e flácido
Ao léu mais vasto
Poeticamente, um relicário; meu crepúsculo
De história, de lindas e indoutas inglórias
A me ocultar no uivar das silabas, a me reverenciar...

Falta-me o capricho!
Deveria estar, inda agora, ao céu
Sob a escadaria do limo, sob o lume apagado
Pois sim, morreria feliz
Haveria de ser raiz a espreitar novos ramos, a exuberar noras infantes
Meus “eus” morreriam por tanto invejar
Por tanta cepa desperdiçada.

Inda assim, faltar-me-ia a ida
Aos meus calabouços partidos
Aos meus adeuses lapidados, aos meus nós...
Pobres avós de minhas palavras!

Por mais que tentasse na hora de hoje
Por mais que tivesse uma razão plausível
Não estaria eu a me acolchoar em tolices
Estaria de luto na tal escada... riria; ria você também!
Velando meu próprio corpo, pêndulo da desgraça.

Por não me ter tido um fã
Por lhe ter dado muitos fás ou rés
Mas, nenhum a ocultar mesmices
Mas, algum a me lambuzar de resquício
Por tolo ser...
Por ingênuo olhar e acreditar que, um dia, eu seria lido.

Ó mundo, mais uma vez, assaz bandido!
Não me negues as flores do sepulcro
Não me negues!
Pois haverei de ter com elas antes que o fogo me consuma
Antes que as pombas assumam todos os riscos de minha obra
O que, certa vez, seria papel merecido de alguma editora.

Movo meus mais incrédulos sentimentos
A me ladear na marcha
A me calcar macérrimos ‘las’, pois estarei em meio aos escombros
De minha obra, pobre, rota e ensangüentada
De meus sonhos de mancebo febril, marulhando neste Brasil
De poucas ceias, de letras murchas
Porém, retumbante e extasiado
Por ver sumir daqui, neste momento, um natimorto
Um cancro que surgiu ao morrer, morreu sem sentir
E amou sem medir, sem dar contar de que este amor era invisível
De que este sonho jazia desde a sua concepção.
Cesar Poletto
Enviado por Cesar Poletto em 14/03/2008
Alterado em 23/04/2008
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